A MINHA PRIMEIRA VISÃO DA MONTANHA

Longe estava eu de imaginar que a primeira vez que ouvi falar da visão da montanha, seria já um chamado. Ele há coisas que não há volta a dar. Uma metanoia atrás da outra, assim tenho vivido.
Mas porquê estar 4 dias e 3 noites sem beber, sem comer, num círculo de rezos, sozinha e em silêncio a maior parte do tempo? Para quê?
Depois de escutar um Homem Medicina, recebi a resposta. Numa nova era, onde tanto se fala de espiritualidade e com tanta gente iluminada, desperta, e a querer ser espiritual, poucos são os que estão dispostos a atravessar o deserto. De oferendar-se por tudo o que recebe, colhe, come, suga, bebe, e não devolve. Não admira que o mundo seja cada vez mais um manicómio a céu aberto.
A Inteligência Ancestral sabia. E nunca se desconecta do todo. Graças às famílias do Norte da América que esta medicina mantém-se viva, para irmos chorar por uma visão que nos revele o nosso destino, numa montanha isolada, sem água, sem comida, sem palavra, para descobrir uma forma de alimento espiritual.
"Não vais para pedir...
Vais para recordar quem és.
Não vais à procura de respostas...
Vais esvaziar-te para que a visão te encontre."
Vivi a minha primeira subida, apresentando-me à direcção do leste, a direcção do grande espírito, do mundo invisível, de todos os guias, dos elementos da vida, da proteção, da gratidão (oferendamos por quatro vezes, uma por ano, para cada direcção). Dentro do meu círculo de rezos fui eu e os meus medos. Vieram todos desafiar a minha fé. Rezei/orei por mim e por todas as minhas relações. Pelas actuais, pelas do passado, pelas futuras. Pela minha família, amizades, amores, por aqueles que já fizeram a passagem. Fui agradecer.
Heriberto, homem medicina, dizia aos visionários para subirmos com o mínimo possível para a montanha; quanto mais coisas, mais medos levamos. Quão dispostos estamos nós a desapegar, a caminhar no deserto em total rendição, a morrer?
Agora, ao descer da montanha, é que a visão se inicia.
Obrigada aos apoios que comeram e beberam por nós. A vida é uma verdadeira constelação sistêmica.
Hoka Hey
Por todas as nossas relações
Banyoles, Girona
1-4 Maio 2025
