A NOSSA PRESSA ANDA SEMPRE COM PRESSA

A nossa pressa anda sempre com pressa. Uma correria desgraçada que atropela mortalmente postos de trabalho, centenas de ordenados que uns quantos humanos podiam levar para casa e terem alguma independência. Pressa para chegar onde? A casa, à família, aos amigos? Pressa para fazer o quê? Um bolo para partilhar com amor? Para brincar com os filhos? Ou será para afundar na tecnologia híbrida e vazia que aprisiona a nossa energia, mente e espírito? Assistimos, cúmplices, a uma sociedade parideira de caixas automáticas que assassina mão-de-obra humana. Um vómito totalitário de energia artificial que quer substituir o ser humano.
Permitam-me partilhar um episódio maravilhoso que aconteceu comigo. Estava eu a chegar à portagem na Ponte 25 de Abril e dirijo-me (sempre que há) a uma cabine humana. Além de contribuir para um posto de trabalho, o atendimento é sempre mais rápido. E claro, humano. Nessa manhã, foi especial. O senhor rasgou um enorme bom dia acompanhado de um piropo (saudades dos piropos cavalheiros): - "Ah, você parece a Miss Universo! É tão linda!". Sim, era o famoso Sr Samuel da ponte, e foi a primeira vez, em anos, que o conheci. Abençoado homem que enche o coração das mulheres durante a passagem do tabuleiro da ponte, e mais além.
Continuo a trabalhar muito em mim. Não conheço outra forma. Têm sido mergulhos profundos na minha floresta subterrânea. Faço o que posso, o que consigo. A única saída é atravessar, já dizia o poeta. De quando em quando lá recorro ao analgésico físico e emocional, mas com intervalos cada vez maiores. Assisto regularmente a boa gente que afirma querer curar-se, que "acredita" estar consciente e iluminada, mas passa a sua vida mergulhada em cocktails da nova era, numa nova caverna que substituiu drogas por medicinas. Um mishmash de sabedoria ancestral e indígena que, muitas vezes, acaba por abrir portais perigosos.
A semana passada vivi uma dança bonita entre os meus processos, de largar capas, medos, bloqueios e pesos, para continuar a abrir o (meu) Caminho com maior leveza. Medicina simples e profunda com partilhas de dor e de amor. Senti estar no aqui e agora, e simplesmente, SER. É mais raro do que temos consciência, pois a auto-sabotagem é tramada. O Serviço da Maluka Therapy foi muito enriquecedor, em todas as suas áreas. Contudo, esta semana, já senti um shift energético. Cancelamentos, reagendamentos, sistema imunitário mais frágil, temperamento mais explosivo, o sentimento de frustração e impotência ao testemunhar o ecocídio gigante neste país. Como se abate tanta árvore saudável e secular? Como se espalha herbicidas, à descarada, à beira das estradas e junto a fontes de água?! Como nos mantemos aquiescentes??
No meio de tudo isto, uma Epifania. Recebo a confirmação de que a grande medicina que tenho recebido reside no meu privilégio de ter calçado vários sapatos. Abre algo que não é visível de imediato, como a expansão, humildade, percepção. Quantos sapatos diferentes já calcaste nesta vida?